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CRÔNICAS |
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Fala Bambu!
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por Marcelo
Alexandre Valem
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Mais
um domingo que começava. Eu, já acordado há um bom tempo,
virando de um lado para outro da cama, estava ansioso para que o
despertador tocasse. As sete em ponto ele tocou. Pulei da cama e
corri para o banheiro. Numa fração de segundo já entrava na
cozinha aos gritos:
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-
Pai!
Pai! Me deixa ver o jornal!
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- Que
é isso menino? – retrucou minha mãe – isso são modos? Diga
bom dia ao seu pai!
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-
Bom
dia papai!
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- Bom
dia meu filho! Tome, veja a página de esportes que você tanto
quer.
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- Por
que o Júnior está tão ansioso hoje, querido?
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- Porque
hoje é dia de “derby”[1]! – gritei da sala.
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- É
isso querida, hoje tem Ararense e Comercial no São Joaquim[2] e,
quem ganhar, leva o caneco!
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- Ah,
homens... – suspirou minha mãe.
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Morávamos
no final da Rua Visconde, perto do campo “deles” e, eu e meu
pai saímos cedo e fomos a pé até o São Joaquim. Logo nos
deparamos com o nosso vizinho, “seo” Tomé, e o filho dele, o
Chiquinho, que tinha a minha idade. Chiquinho estava com aquela
horrível camiseta preta e branca. Olhei para ele com aquele olhar
de ódio, no que prontamente ele rebateu com outro olhar.
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-
"Dia",
João! Está indo para o São Joaquim?
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- Sim,
e você, não vai levar o Chiquinho?
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- Ah não, se fosse aqui no Joel Fachini[3] nós iríamos, mas lá no
São Joaquim não dá.
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- Então tá. Boa sorte! Que vença o melhor!
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- Que vença o Comercial! – disse “seo” Tomé em tom sarcástico.
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Aquelas palavras fizeram com que meu sangue subisse, mas eu me
contive.
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Chegamos
ao campo da Ararense e o jogo já estava para começar. Estava
lotado, quase não havia lugar. Arrumamos um lugar na sombra,
perto do gol que ficava para o lado da Rua Visconde. Os times
entraram e foi aquela algazarra. Logo o juiz deu início ao jogo e
meu coração disparou. Tínhamos que ganhar. No ano passado eles
já haviam nos tirado o título, mas desta vez sabia que seria
diferente. O tempo passava e nada de gol. Era ataque grená, era
ataque “deles”. Bola na trave, bola para fora. Salvador[4]
defendia todas e Cile[5], do outro lado, também. Já faltavam dois
minutos para o fim da partida e eu estava agoniado. De repente,
numa bobeada do centro-médio “deles”, Chopps[6] escapa pela
direita e cruza na medida para Elói[7] completar de cabeça. Gol!
Gol da Ararense! E o São Joaquim explode de alegria.
O árbitro apita o final da partida e novamente éramos
campeões! O estádio inteiro ecoou numa só voz: “Fala bambu!
Fala bambu!”[8] O outro lado do estádio estava em silêncio.
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A
volta para casa não poderia ter sido melhor, todos os torcedores
grenás riam e cantavam a grande vitória do nosso time. Chegando,
avistei o Chiquinho. Não via a hora de vingar-me daquelas
palavras de “seo” Tomé. Chiquinho olhou-me nos olhos e
sorriu: “Parabéns, vocês ganharam”. Sinceramente não
esperava por aquelas palavras. Fiquei mudo. “Vamos brincar?”
– insistiu Chiquinho.
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Pensei
bem e sorri. “Vamos sim; bolinha de gude”?
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Bons
tempos, velhos tempos, velhas histórias...
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[1]
A palavra "Derby" hoje em dia é usada pra designar um grande
confronto, um clássico do futebol. O jogo entre Ararense e
Comercial era conhecido como Derby.
[2] Estádio São Joaquim, da Associação Atlética Ararense. Hoje
existe somente o campo de jogo localizado nas dependências do
clube.
[3] Estádio Joel Fachini, de propriedade do Comercial F.C.,
transformado em Municipal por decreto da Câmara no início dos
anos 80.
[4] Goleiro da A. A. Ararense nos anos 40.
[5] Goleiro do Comercial F. C. nos anos 40.
[6] Atacante que começou a carreira na Ararense no final dos
anos 40. Em 1955, transfere-se para o grande rival, o Comercial.
[7] Atacante. Passou praticamente toda a sua vida na Ararense.
Começou sua carreira no início dos anos 40 no então Operário
F.C. Jogou quase 20 anos no clube grená.
[8] Nas partidas entre Comercial e Ararense
realizadas em São Joaquim, os torcedores do Comercial ficavam
debaixo dos bambuais, balançando os bambus quando seu time
marcava um gol. Mas quando o time da casa fazia gol, sua torcida
gritava "fala bambu!". O
troco era dado quando o jogo era realizado no Joel Fachini. A
torcida visitante da Ararense ficava debaixo de uma mangueira e
quando o Comercial marcava um gol sua torcida gritava "fala
mangueira!". |